Mathieu e Thomaz

Jean não é um cara normal. Acostumado sempre a ser diferente, do tipo que recusa uma indicação de um vendedor que recomenda um produto que foi vendido “há mais de 10 pessoas ontem” simplesmente pelo motivo do produto ter se tornado comum, ele também entra no clube das pessoas que fazem diferente ao “fazer” dois filhos com deficiência mental, Mathieu e Thomaz.

Aonde a gente vai, papai?” é um livro que descreve de forma emocionante e engraçada (graça fortemente temperada com humor negro) a vida dos dois filhos de Jean-Louis Fournier, autor do livro. As crianças são portadoras de deficiência mental e as piadas mórbidas que o autor faz a respeito delas tiram um pouco daquela mesmice com que a maioria das pessoas trata os deficientes mentais: com pena, medo, vergonha, tristeza, falta de tato.

As crianças não liam, não corriam, não andavam de bicicleta, não namoravam, não iam à escola, não dirigiam, não tinham cartões, não jogavam futebol, não ficavam eretos, não tomavam banho sozinhos e não eram motivo de orgulho para seu pai. A frase que compõe o título do livro foi inspirada em Thomaz. Toda vez que eles andavam juntos no carro Thomaz perguntava ao pai incansavelmente a mesma coisa, repetidamente, mesmo após receber as respostas.  Mathieu foi descrito pelo pai como um amante da velocidade, pois só ficava repetindo “vrum-vrum” enquanto estivesse acordado.

Alguns trechos do livro chocam o leitor, pela ousadia do autor expressa nas palavras que os compõem. Como um em que o autor agradece aos filhos o fato de ter podido andar em grandes carros americanos. O que ocorreu devido aos grandes descontos que o condutor que tivesse filhos deficientes possuía ao comprar veículos na França.

By Don Meliton

Obrigado, meninos

Uma das partes do livro, que retrata o humor negro do autor:

“Thomaz e Mathieu estão crescendo, estão com onze e treze anos. Pensei que um dia eles teriam barba, que teríamos que barbeá-los. Imaginei-os por um instante barbudos.
Pensei que, quando fossem grandes, eu daria a cada um deles uma boa navalha de barbear. Nós os trancaríamos no banheiro e os deixaríamos se virar com a navalha. Quando não ouvíssemos mais anda, limparíamos o banheiro com um pano de chão.
Contei isso a minha mulher para fazê-la rir”.

O livro não é somente composto de piadas infames, mas também de momentos de desabafo que emocionam. Houve momentos em que lágrimas me vieram aos olhos. A obra nem tampouco serve como manual para aqueles que querem aprender como lidar com portadores de deficiência mental. É “apenas” um registro que parece ser sincero de um pouco do cotidiano de pessoas que vivem um caso atípico: possuem dois filhos que não são normais, apesar de esse termo ser repudiado pelo autor.

Recomendo.

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