Ontem eu caminhava em direção ao centro da cidade e passei por uma velhinha sentada de cócoras, rasgando uns sacos pretos, de lixo. Ela procurava comida, separava o que “servia” do que não servia, segundo um critério só dela. Pois, certamente, todos nós, que temos a oportunidade de ler esse post, categorizaríamos aqueles restos como algo que não daríamos nem para nossos animais de estimação (ainda não tenho um, registra-se), no mínimo.
Estava eu armado com minha câmera digital e dei meia-volta para fotografar a cena. Seria a cena mais forte que já fotografei, mais chocante. Não sei dizer certamente qual o objetivo, a não ser somente o de publicar a foto no Flickr. Até então, tudo bem. Mas, enquanto eu procurava uma posição para que não fosse notado e a senhora então não se sentisse mal, do nada apareceu um rapaz e deu 2 reais a ela. Não tive coragem de fotografar a cena. Senti-me mal.
E hoje, conversando e contando para a Luisa o fato, senti-me mal, novamente, apesar de não ter exteriorizado isso. Senti-me mal por não ter comprado algo para a velhinha comer. Não dou dinheiro a moradores de rua. Dou algo para comer. Mas, cedi à pressa do momento, talvez, e não comprei nada para ela comer.
Merda, está chovendo e eu reclamando da porra da goteira que apareceu no teto do meu cafôfo. Onde estará a infeliz da velhinha? Nem quero imaginar o que ela está vendo agora.
O que eu fiz? O que eu deixei de fazer? O que será que representou aquele jovem? Minha consciência? Um aviso de que eu estaria fazendo algo inútil? Ou de que poderia ajudá-la de alguma forma, como ele o fez?
Penso que não estaria errado em fotografar a cena e depois dar um marmitex a velhinha.
Deus, perdão. Pois, errei.

Por Sebastião Salgado
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